sexta-feira, 16 de julho de 2010

PILOTOS QUE EU GOSTO - NEIDIEL ROURE

Lá pelo meio da década de 70, a divisão 1 reunia um grande número de carros e os campeonatos regionais eram bem fortes, inclusive, aqui no eixo Brasilia/Goiânia.

Os goianos sempre vinham correr em Brasilia e os Brasilienses sempre corriam em Goiânia e haviam grandes pilotos. Lembro-me de Goiânia, da dupla Cairo Fontes e Alencar Junior que sempre andavam na frente, mesmo em campeonatos brasileiros, onde estavam as melhores equipes do Brasil. Dentre estes pilotos, o que me fascinava era o goiano radicado na cidade satélite de Sobradinho (a Petrópolis brasiliense) Neldiel Roure.

Eu era simplesmente fã dele e muita gente também, pois a sua tocada a bordo do opalão vinho metálico da Wagner Refrigeração, fazia o show das provas.

Ele entortava nas curvas da vitória e na 1, onde, geralmente, eu ficava assistindo a prova. Nunca vi um piloto fazer as referidas curvas jogando o carro de lado nas 4 rodas, pois elas são de alta velocidade e tem que ser muito macho e bom de roda. Numa prova dos mil quilômetros de Brasilia, o Neidiel estava andando ali por volta da 5ª, 6ª posição com o carro que ele mesmo preparava e todos os outros carros começavam a parar e o Neidiel continuava acelerando até assumir a ponta da corrida, numa época em que os Mavericks quadrijéteres eram os carros mais rápidos que os opalas 4100.
O cara simplesmente não parou e não me lembro de sua colocação final. Depois, o que fiquei sabendo, na vistoria, constataram que o carro dele tinha um tanque duplo ou reserva e isto seria proibido pelo regulamento e ele foi desclassificado.
Quando eu corria na Hot Dodge lá por volta de 81, 82, num determinado sábado eu e uma turma chegamos ao autódromo bem cedo para treinar e o portão estava fechado. Encostamos os Dodges e começamos a bater papo com um cara que estava sentado no capô de um corcel 1, também esperando que alguém abrisse o portão, e não é que o cara era o Neidiel Roure para a minha surpresa.
Enfim, ele estava vindo, se não me engano, do Pará e o pessoal da Federação o convidou para ele ser fiscal, fazer as vistorias nos carros. E eu ali, com o meu ídolo fazendo vistoria em meu carro. Depois, fiquei sabendo que ele tomou rumo de Tocantins e num assalto bobo a um transeunte, o cara assaltado reagiu e ele recebeu um tiro e veio a falecer.



Neidiel com seu opalão da Vagner Refrigeração seguido de Leo Faleiros
Para falar mais a respeito do Neidiel, transcrevo depoimento do Dito, seu irmão, feito no Mestre Joca http://mestrejoca.blogspot.com/ quando de um post sobre ele:
"Sou irmão do Neidiel, sendo assim, gostaria de relatar algumas linhas das aventuras das épocas em que o Neidiel se enchia d emotivação para fazer o que ele mais amava em sua vida, pilotar.
Tudo começou nos anos 60. A FADF e a PM organizaram duas gincanas automobilísticas, a primeira no eixão sul.
Primeira surpresa: dentre dezenas de carros Neidiel foi o campeão. Lembro-me que o Alex Dias Ribeiro também participou.
A segunda gincana foi em Taguatinga, Neidiel ficou em segundo lugar, isso com um fusca 1.200 e rodas tala-larga. A partir de então, a mosca azul já o tinha contaminado.
Na sequência, uma corrida de rua entre a Rodoviaria e a W3 norte, descendo pela Disbrave e voltando a Rodoviária, ele se empolgou mais ainda. Rebaixou o fusquinha, inventou na marra uma dupla carburação, e comprou mais duas rodas tala-larga, e pau na máquina.
Não me lembro qual foi sua classificação final, mas o alvoroço na família foi grande, pelo seguinte detalhe: Na sexta feira que antecedia a corrida, Neidiel convenceu meu Pai e minha Mãe a passar o final de semana em Goiânia, e assim ele ficaria a vontade para trabalhar em seu carro. No início dos anos 70, evoluiu bastante, era um fusca O km.
Com esse carro ele fez coisas incríveis para época, tais como: Tinha um jogo de para-lamas cortados para o fusca receber as enormes rodas tala-larga, escapamento dimensionado, dupla carburação de opala, comando P-4, santo-antonio em tubos curvados e parafusados e por aí iam os equipamentos.


O fuscão com pára-lamas cortados e comando P4 em corrida em Inhumas GO


Neidiel, Opala 3.800 3 marchas 4 portas, campeão do fetival do ronco no Pelezão e sua noiva Carminha

Lembro-me de corridas em Goiânia, Neidiel tinha um amigo chamado José Carlos que fazia questão de ter um carro igual ao dele, mas guiar era outro detalhe, difícil de ser batido. Olavo Pires era o cara, chamava muita atenção pois tinha um carro esportivo, um tal de fúria. Corridas em Anápolis, Goiânia, Inhumas e Brasilia faziam a galera respirar fundo e com a certeza de que grandes emoções seriam presentes.
Para terminar a era fusca, certa vez Neidiel alugou um motor da Camber pois já tinha uma certa amizade com Alex D. Ribeiro e Nelson Piquet. O motor era uma preparação exclusiva da Camber, por isso era lacrado, não poderia refazer nada, nem óleo do motor poderia ser trocado. Neidiel montou o motor no fusca, mas teve um problema: quando o motor aquecia, a luz de óleo acendia, isso significa que o óleo não tinha pressão.
E aí, o que fazer? Neidiel rompeu a regra e o lacre, trocou o óleo e o problema se resolveu. Chegada a era dos Opalas 4.100. Em 1973, Neidiel comprou um O km na Jorlan da 504, e já estreou nos Mil quilômetros de Brasilia na inauguração do autódromo após a Formula 1.Outro fato que me lembro: certa vez quando Neidiel conseguiu uma boa quantia de patrocínio e fomos a São Paulo para comprar peças na ENVEMO, SLIK e SKANDERIAM.




Neidiel em prova do campeonato Brasiliense




Neidiel com o Maverick fazendo dupla com o Asdubla Romão em 1975 , Um V 8 em BSB







Pistões, comandos, embreagens, carburadores, etc. Neidiel contou com grandes amigos e patrocinadores, como Carlos Alberto da CCA, Simão da Wagner Refrigeração, Waltinho Ferrari da Ideal, Só Frango, dentre outros. Muitas outras estórias guardadas em minha lembrança me faz ter algumas conclusões sobre Neidiel. Ele sempre foi um grande guerreiro, fosse em sua oficina mecânica, fosse pilotando um carro.

Valtinho Ferrari, Dito, irmão do Neidiel e ele dentro do primeiro Formula V construído em Brasilia





Enquanto foi possível aproveitou a vida, após um casamento mal resolvido ele não teve mais consistência e determinação como na época de solteiro. Há 10 anos o destino interrompeu seus sonhos.”

Neidiel e sua Mãedepois de uma corrida em BSB, 1974, ao fundo um tal careca da CCAe o piloto Nelson Bola Lacerda




Neidiel com amigos e familiares e para a minha própria surpresa, eu, Jovino de jaqueta jens passeando pelo box



Seus troféus




Há  muito tempo eu estava querendo fazer esta pequena homenagem a este grande piloto brasiliense, um apaixonado, um verdadeiro artista na arte de pilotar. Como dizia antigamente, um verdadeiro ás do volante, além de grande preparador de carros de corridas e que soube viver com toda a intensidade sua vida enquanto Deus lhe permitiu.


(Fotos, leo Faleiros, cedidas gentilmente pela Consuele Jofilly e do Dito, irmão do Neidiel)

7 comentários:

  1. Caro amigo Jovino, é impossível conter a emoção em relembrar parte das histórias de meu irmão. agradeço e parabenizo sua criatividade e dedicação ao tocante de reviver a época que o automobilismo era movido a pura paixão.
    Grande abraço, saúde e paz.

    ResponderExcluir
  2. Dito, obrigado pelos elogios. Como disse no post, a muito tempo tinha vontade de prestar homenagem a este grande piloto.
    Jovino

    ResponderExcluir
  3. Que feliz coincidência, olha só Jovino á trinta e seis anos atrás em frente ao opala passeando pelos Box de BSB após a corrida.
    Certas coisas acontecem em nossas vidas que somente Deus tem o entendimento.

    ResponderExcluir
  4. Jovino, sou sobrinho do Neydiel e sinto muito por não ter vivido essa época, pois sei que foi uma época de ouro. Neydiel foi uma pessoa maravilhosa. Amigo, bom papo, muito disposto a ajudar a quem quer que seja. Agradeço a homenagem a esse GRANDE HOMEM. Renato Almeida

    ResponderExcluir
  5. Muito fera essa homenagem cara .......

    ResponderExcluir
  6. Poxa que legal...meu pai correu com ele!!!

    ResponderExcluir